"Minha luta foi contra a cópia do mobiliário europeu. O Brasil precisava de um móvel que respondesse ao seu clima, à sua luz e à sua arquitetura moderna."
Filho e neto de marceneiros, Joaquim Tenreiro nasceu em Melo, Portugal, onde absorveu desde a infância o respeito pela madeira e o rigor do ofício artesanal. Em 1928, migrou definitivamente para o Rio de Janeiro. Inicialmente, trabalhou para tradicionais firmas de decoração da época, como a Laubisch Hirth, que reproduziam móveis de estilo clássico francês e português. Inquieto com o descompasso entre o mobiliário pesado que fabricava e a arquitetura moderna, solar e fluida que começava a surgir no Brasil pelas mãos de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, Tenreiro decidiu traçar seu próprio caminho.
O marco inicial de sua revolução ocorreu no início dos anos 1940, quando o arquiteto Francisco Bolonha encomendou a Tenreiro o mobiliário para uma residência projetada por ele. Foi o catalisador para que o designer criasse a Cadeira Leve (1942), uma peça em jacarandá com assento e encosto em palhinha nacional, que eliminava qualquer excesso ornamental em prol da pureza estrutural. Logo em seguida, em 1943, fundou sua primeira oficina própria, a Langenbach & Tenreiro, tornando-se o fornecedor predileto da elite intelectual e dos arquitetos modernistas brasileiros.
O ápice de sua genialidade construtiva materializou-se na célebre Cadeira de Três Pés (1947). Com um encosto curvo feito a partir de cinco tipos diferentes de madeiras nobres (jacarandá, pau-marfim, roxinho, mogno e imbuia) dispostas em faixas cromáticas, a peça desafiou as leis da marcenaria tradicional e elevou o móvel ao status de obra de arte escultórica. Tenreiro compreendeu como ninguém o clima tropical do Brasil, reintroduzindo a palhinha trançada para permitir a ventilação e explorando as texturas orgânicas e o calor das matérias-primas locais.
A partir do final da década de 1960, Tenreiro decidiu fechar suas lojas e oficinas de mobiliário para se dedicar integralmente às artes plásticas. Ele canalizou seu domínio técnico da madeira para a criação de relevos e esculturas abstratas de grande impacto geométrico. O legado de Joaquim Tenreiro transcende o tempo: ele não apenas ensinou o Brasil a sentar-se de forma moderna, mas transformou a herança artesanal da marcenaria na mais pura expressão do design autoral de alta coleção.


