"Nossa proposta foi projetar interiores como uma extensão da arquitetura moderna, oferecendo móveis funcionais e componíveis que respeitassem o espaço e valorizassem a excelência construtiva."
Em meados da década de 1950, no efervescente cenário cultural e arquitetônico do Rio de Janeiro, a Cantù Móveis nascia com o propósito de suprir uma demanda altamente qualificada por interiores contemporâneos. A condução da empresa ficou a cargo de uma dupla de visionários: os arquitetos Jorge Jabour Mauad e Osíres Cunha Meale. Em vez de operarem apenas como projetistas de edifícios, eles enxergaram no mobiliário o elemento integrador essencial para a habitação moderna, aplicando um rigoroso método de pesquisa espacial e ergonômica em cada criação.
O grande diferencial competitivo da Cantú no mercado fluminense foi a sua inteligência industrial aplicada ao mobiliário componível e modular. Enquanto a maioria dos ateliês da época limitava-se a produções estritamente sob encomenda, Mauad e Meale desenvolveram sistemas de móveis que permitiam customizações funcionais para salas de estar, salas de jantar e escritórios corporativos, sem que isso sacrificasse o acabamento artesanal. Suas lojas na Zona Sul carioca e em Niterói funcionavam também como estúdios de arquitetura de interiores, oferecendo consultoria estética completa para a elite intelectual da época.
Esteticamente, a assinatura da Cantú equilibrava a leveza dos pés palito e o desenho orgânico com o peso visual de matérias-primas nobres. O jacarandá maciço servia de espinha dorsal para poltronas de encosto anatômico, elegantes mesas de centro com tampos de mármore e suntuosos buffets estruturados. O nível de excelência construtiva de suas junções, o polimento da madeira e a precisão do estofamento em couro geraram um fenômeno curioso no mercado vintage: por décadas, inúmeras peças anônimas da Cantú foram erroneamente atribuídas a mestres como Joaquim Tenreiro e Jorge Zalszupin, o que atesta a qualidade superlativa de sua manufatura.
Embora a marca tenha encerrado suas atividades após o período áureo do modernismo carioca, seu impacto técnico permaneceu latente. Nos últimos anos, a Cantú Móveis passou por um intenso processo de resgate histórico promovido por galerias internacionais especializadas em design brasileiro. Hoje, os exemplares originais que ainda preservam os selos e timbres de fábrica da marca são celebrados como verdadeiros tesouros do colecionismo de alta gama, simbolizando uma era onde o rigor geométrico dos arquitetos encontrou a poesia das texturas tropicais.


