"Eu amo a geometria. Se você olhar para os meus objetos, verá que eles são feitos quase inteiramente de círculos, quadrados, triângulos ou cilindros. Há poesia na precisão das formas puras."
Nascido em Milão em uma linhagem de proeminentes arquitetos, Vico Magistretti cresceu imerso na cultura construtiva de sua cidade natal. Durante a Segunda Guerra Mundial, para escapar do alistamento militar fascista, mudou-se para a Suíça, onde estudou sob a tutela do renomado arquiteto Ernesto Nathan Rogers, cuja visão humanista marcou profundamente sua carreira. Ao retornar à Itália em 1945, graduou-se pelo Politecnico di Milano e assumiu o estúdio de seu pai, engajando-se imediatamente na reconstrução física e cultural do país por meio de projetos de habitação social e edifícios institucionais.
Foi na transição para a década de 1950 que Magistretti expandiu seu olhar para o design de mobiliário, tornando-se uma figura central nas primeiras edições da prestigiada Triennale di Milano. Ele compreendeu de imediato que o futuro da profissão residia na simbiose entre o arquiteto e a nova indústria automatizada. Sua abordagem era intelectual e direta: ele desenhava apenas a essência geométrica do objeto, confiando na competência técnica dos engenheiros de fábrica para materializar o produto. Dessa filosofia nasceu, em 1959, a icônica cadeira Carimate, que unia uma estrutura rústica de madeira pintada a um assento de palha, resgatando a tradição camponesa italiana sob uma ótica brutalista e limpa.
Nas décadas de 1960 e 1970, o nome de Magistretti tornou-se sinônimo do triunfo tecnológico do Made in Italy. Sua colaboração com a Artemide deu vida à luminária de mesa Eclisse (1965), equipada com uma cúpula interna giratória que permitia ao usuário regular a intensidade da luz evocando as fases da lua — um projeto que lhe rendeu o cobiçado prêmio Compasso d’Oro em 1967. Pela Kartell, desafiou os limites dos materiais poliméricos ao desenhar a cadeira Selene (1969), a primeira cadeira do mundo moldada a partir de uma única folha de plástico injetado. Já pela Cassina, revolucionou o conforto residencial com o sofá Maralunga (1973), cujo mecanismo interno permitia dobrar ou estender o encosto, adaptando-se às necessidades do corpo.
Vico Magistretti manteve-se ativo até o fim de sua vida, lecionando por mais de vinte anos no prestigiado Royal College of Art de Londres, onde inspirou dezenas de designers da nova geração a buscarem o design limpo e atemporal. Suas obras integram as coleções permanentes dos museus mais importantes do mundo, incluindo o MoMA de Nova York. O mestre faleceu em 2006, deixando um acervo imensurável gerido pela Fondazione Vico Magistretti, consolidado como a prova definitiva de que o design inteligente e de formas puras é o verdadeiro patrimônio visual da humanidade.


